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Manifesto da Escalada Natural - por André Ilha.


Manifesto da Escalada Natural


Quando em 9 de abril de 1912 cinco jovens de Teresópolis pisaram pela primeira vez o cume do Dedo de Deus, começava em nosso país a prática de um novo esporte já bastante popular em outras partes do mundo, o Montanhismo. Ganhando de imediato novos adeptos, o Montanhismo desenvolveu- se tendo como óbvio objetivo inicial a conquista de inúmeros picos ainda virgens no Rio de Janeiro e em seus arredores e, à medida em que estes escasseavam, a de novas vias de acesso a montanhas já escaladas anteriormente. O equipamento e as técnicas empregados por esses pioneiros eram evidentemente bastante primitivos, parte devido à própria época em que essas ascensões se deram, parte pela falta quase que absoluta de contato com outras regiões nas quais a escalada em rocha se encontrava mais desenvolvida.

O uso de troncos e escadas como auxílio direto na progressão do escalador era a regra, e a proteção inteiramente baseada em grampos, artefatos de segurança que, uma vez aplicados, marcam irreversivelmente a rocha. Cabos de aço eram considerados uma técnica refinada, e o expoente máximo no uso deste artifício foi o infatigável escalador Sílvio Joaquim Mendes, que ao longo da década de 40 produziu diversas escaladas, algumas notáveis, com este recurso. Não havia qualquer preocupação com estilo pois então, muito compreensivelmente, o importante era completar a escalada e atingir de qualquer maneira o cume visado. Os fins justificavam os meios. Pouco importava como a via era feita, já que escaladas eram encaradas como simples itinerários na rocha a serem vencidos com o auxílio de todos os recursos disponíveis.

Novas técnicas foram então criadas e introduzidas em nosso meio, e o equipamento à disposição do escalador foi de tal forma aperfeiçoado que muito cedo chegou-se ao ponto em que, literalmente, qualquer via poderia ser conquistada, mesmo por cordadas sem o menor preparo para tal, através de artificiais fixos. A habilidade cedia lugar à diligência, a criatividade à repetição, a coragem à tecnologia, e a vitória final sobre a escalada tornava-se, assim, um fato inevitável.

Além disso, muitas dessas conquistas eram coletivas, ou seja, aquelas nas quais o sentimento maior de descoberta e criação de uma nova via é substituído por um trabalho de grupo que, embora gratificante sob certos aspectos, reduz o escalador de condição de um verdadeiro artista para a de simples operário. Resulta daí que a montanha terá que ceder, necessariamente, diante de um assalto que conte com tantos esforços alocados de forma sistemática. Isso rouba da escalada em rocha o sabor de aventura e a incerteza do resultado, sensações próprias de ascensões executadas com meios limitados e que, certamente, são dois de seus maiores atrativos. A experiência única que é a abertura de um novo traçado por uma cordada pioneira cede lugar a um avançar repetitivo, quase monótono, com o uso maciço de recursos materiais e humanos visando apenas completar a via, e não extrair dela experiências enriquecedoras.

Para salvar o esporte, enquanto esporte, de uma estagnação total, impunha-se que a comunidade local de escaladores resolvesse, voluntariamente, limitar os meios empregados em conquistas e ascensões subseqüentes. Tal atitude era inclusive urgente, pois o Rio de Janeiro e seus arredores já haviam sido severamente castigados com milhares de grampos absolutamente desnecessários. Estes desfiguram por completo o caráter natural das paredes rochosas e constituem-se, em termos ecológicos, em uma forma de poluição estética tão indesejável quanto o lixo que por vezes vemos espalhado ao longo de trilhas, acampamentos e mesmo amontoado na base de certas escaladas.

De fato, ao longo do tempo foram surgindo escaladores para os quais subir simplesmente uma parede passou a representar muito pouco, e que viam escaladas não como um mero itinerário na rocha, mas como uma íntima união deste com o estilo empregado durante a sua conquista e mesmo em ascensões posteriores. Para eles, grampos eram apenas o último (e não o único) recurso a ser usado, e escaladas deveriam ser tentadas o mais em livre possível, ou seja, sem se utilizar dos artefatos de segurança para apoio e progressão, devolvendo-lhes o seu caráter original de proteção no caso de uma eventual queda. Se uma escalada lhes parecesse acima de suas capacidades, treinavam para fazê-la corretamente ou então desistiam da empreitada, respeitando os limites impostos pela montanha.

Um dos mais remotos e brilhantes exemplos dessa nova mentalidade foi a conquista da Face Leste do Dedo de Deus, em 1944 - e portanto em plena era do cabo de aço –, por três associados do Centro Excursionista Brasileiro, sem o uso de um grampo sequer. O CEB foi o pioneiro e desde então, até há poucos anos atrás, essa linda escalada pôde ser desfrutada em seu estado original por centenas, talvez milhares, de escaladores. Exemplos como esse, de escaladas naturais, se multiplicaram ao longo dos anos, mas como a toda ação corresponde uma reação, logo se levantaram algumas vozes e críticas contra esse processo, que começava em nosso país já com considerável atraso em relação aos demais locais no mundo onde o esporte era praticado com seriedade. Essas críticas partiam de indivíduos ou grupos inconformados com o progresso e a evolução da escalada em rocha em nosso país, por razões para mim obscuras, mas eram a princípio discretas, já que não foi senão muito lentamente que o conceito de "escalada limpa" foi se estabelecendo em nosso meio e, portanto, não se constituía ainda em ameaça maior ao arcaico status quo vigente.

Ocorre que o número de adeptos do purismo em nosso esporte cresceu consideravelmente em número e habilidade, graças à natural evolução que acompanha o desenvolvimento de qualquer atividade, e sua capacidade técnica foi em muito ampliada devido à determinação de se explorar novos limites de dificuldade com uma auto-imposta redução de meios. Dentro desse espírito, notáveis conquistas foram realizadas; afinal, a escalada em livre pode ser comparada a uma dança de rara elegância executada em um cenário vertical, e certamente é uma das mais belas e gratificantes formas de expressão do corpo humano em movimento. Nela, cada parte do corpo, assim como os sentidos e as emoções, são convocados a cada instante a terem um desempenho preciso para que se possa vencer o obstáculo proposto. Além disso, se a competição em nível interpessoal e intergrupal é um elemento inteiramente estranho e condenável em nosso esporte, pode haver uma competição velada do escalador com ele mesmo, no sentido de estabelecer os seus próprios limites e, se possível, alargá-los.

Para isso, por vezes, é necessário um grande treino e dedicação, como de resto em qualquer outra atividade humana. Mas que mal há nisso? A esse respeito, seria interessante ouvirmos o parágrafo final do editorial da revista inglesa Mountain, em sua edição de janeiro/fevereiro deste ano (1983): "Não devemos nos preocupar quando os escaladores se tornam mais atléticos e usam sua própria força para conquistar a montanha, mas sim quando abusam no uso de artifícios para reduzir a montanha ao seu próprio nível. A reabertura aos olhos do mundo ao longo dos dez últimos anos da noção de escalada em livre pura pôde assegurar a continuidade da saúde do esporte".

Aliás, o nivelamento por baixo do esporte parece ser o objetivo dos mais exaltados opositores de seu progresso nos dias atuais, gente que em plena década de 80 ainda conquista com cabos de aço, escadas de madeira, artificiais fixos inúteis, etc., e que altera profunda e irreversivelmente as características originais de ótimas vias criadas no passado e assim repetidas por anos – ou décadas –, freqüentemente sem comunicar o fato aos onquistadores. Estas pessoas acusam a nova geração e seus feitos como obra de acrobatas e elitistas. Acrobatas porque muitos escaladores de hoje sentem prazer em enfrentar obstáculos muito acima dos acanhados limites que a estreita visão daqueles permite enxergar. E elitistas porque, em sua determinação de desenvolvimento, encaram e tentam dominar os seus próprios medos, e porque têm a suprema coragem de admitir a derrota frente às dificuldades naturais, sem recorrer a marretadas como uma solução rápida e fácil para os problemas que se apresentem.

Diz-se também que não está havendo respeito pelas tradições do Montanhismo, e que as atividades dos escaladores de hoje são conflitantes com o espírito dos clubes, dos quais se estaria tentando, inclusive, subverter a ordem normal. Nada mais falso.

Os clubes sempre foram o principal centro de prática e difusão do esporte em nosso país, e seu papel é insubstituível nesse aspecto. Aqueles que se modernizam nada têm a temer; pelo contrário, só têm a lucrar com a efervescência que a introdução de novas idéias, técnicas e equipamentos trazem. Além disso, tradições só fazem sentido quando não interferem com o progresso, pois se não ainda estaríamos escalando com cordas de sisal na cintura e botas cardadas, e ainda seriam exigidos ao novato dois anos de experiência comprovada para participar de uma simples ascensão à Agulha do Diabo. Os clubes devem ser fortalecidos, desde que não se desviem de sua finalidade original: ponto de encontro de montanhistas, centro de divulgação e estímulo à prática do esporte e arquivo da memória excursionista. Quando um clube passa a dar maior importância à sua vida social do que ao Montanhismo em si incorre em grave distorção, que fere o próprio ideal que motivou a sua criação.

Finalmente, a última crítica que pesa sobre os defensores das escaladas naturais a merecer consideração é a que diz respeito às vias por eles criadas, que seriam perigosas, inseguras, e que se estaria tentando torná-las propositalmente difíceis e inacessíveis ao escalador comum. Nota-se aí, novamente, o conceito de elitismo sendo usado como arma improvisada para suprir a falta de argumentos mais consistentes sobre o assunto, e para disfarçar sentimentos inconfessáveis.

Um exemplo concreto de que qualidade não é sinônimo de dificuldade novamente pôde nos ser dado por associados do CEB, ao conquistarem recentemente duas pequenas e fáceis escaladas de 2º grau no Rio de Janeiro, os Paredões São Pedro e Yosemite. Ambas são vias que, apesar de clássicas em sua concepão, foram conquistadas dentro de um estilo impecável, ou seja, inteiramente em livre e com grampos em número suficiente para torná-las seguras, e nada mais.

É evidente que sempre poderá haver alguma discordância quanto ao tamanho de alguns lances, mas tais discussões devem ser levadas a termo civilizadamente sob o signo do bom senso, e há de se respeitar, em última instância, a concepção original dos conquistadores. De qualquer forma, a questão poderia ser resumida nas palavras de um alpinista austríaco (Reinhold Messner), comentando a respeito dos que insistem em reduzir a dificuldade da montanha por meio de artifícios: "Esses escaladores carregam a sua coragem na mochila". Quanto à proteção móvel – ou natural, já que não danifica a rocha –, tal como nuts, friends, bicos de pedra, afirmo que ela é absolutamente segura quando corretamente empregada, e seu uso é a regra, e não a exceção, em todo o mundo. Há quem diga que nuts não deveriam ser usados, pois nem todos sabem lidar com eles ou mesmo não os possuem. Ora, qualquer técnica só pode ser posta em prática se houver um aprendizado prévio, e o uso de nuts, como qualquer outra em escalada, deve ter o seu ensino difundido para todos. Bater grampos ao lado de boas fendas, visando torná-las acessíveis para todos, seria como se o Comitê Organizador das Corridas de Fórmula I franqueasse suas provas a carros de passeio, para que todos nelas pudessem tomar parte. As únicas diferenças correm por conta da natureza competitiva daquele esporte, estranha ao Montanhismo, e pelo fato de que qualquer um com vontade e disposição reais pode repetir as vias em nuts.

E quanto à alegação de que poucos possuem jogos de nuts, esta é improcedente, pois já vai longe o tempo em que estes eram uma raridade, e atualmente já existem até alguns de fabricação nacional, e todos sabemos como obtê-los. Para concluir, gostaria de lembrar a todos os montanhistas presentes, mas especialmente aos mais novos que, no momento atual, estamos diante de uma encruzilhada que decidirá qual o futuro do nosso esporte. Está em jogo o nosso maior patrimônio, ou seja, o conjunto de paredes rochosas que nos circundam, e que serão legadas àqueles que nos sucederem. Cabe então a cada um, com base nesses fatos que saltam aos olhos de quem quiser vê-los, escolher o seu caminho. Pode ser o caminho fácil que conduz ao passado, o da despreocupação com estilo e com a integridade física e estética da rocha, onde qualquer dificuldade pode ser imediatamente substituída por um grampo; ou pode ser o caminho muito mais árduo e exigente da escalada natural, onde dedicação – por vezes obstinação – e firmeza de propósitos são requisitos indispensáveis. Um caminho onde insucessos são mais freqüentes, mas que por outro lado, e por este mesmo motivo, as recompensas interiores de uma vitória são incomparavelmente maiores, já que derivam de um encontro justo com a montanha. Se esse rumo for o escolhido por todos, então poderemos afirmar com segurança que a escalada em rocha no Brasil irá ocupar, em breve, o lugar de destaque que merece, tanto dentro quanto fora de nossas fronteiras.

André Ilha

Texto lido durante o I Encontro Brasileiro de Montanhismo, ocorrido em setembro de 1983 na cidade de Teresópolis, na sede do Parque Nacional da Serra dos Órgãos, e depois distribuído amplamente em versão impressa com um texto subsidiário, cujo título é "Pontos de Apoio".

PONTOS DE APOIO
Evitar o uso de pontos de apoio artificiais tem sido um constante tema de debates em nosso círculo de escaladores, uma vez que a escalada em livre é um dos objetivos mais evidentes contidos no conceito de escalada natural. Mas o que realmente vem a ser "escalar sem pontos de apoio"? Ou, em outras palavras, como poderíamos definir com precisão o que é escalada livre?

Na moderna concepão do esporte significa não se utilizar, de forma alguma, dos pontos de segurança (grampos, pitons, nuts, cunhas etc.) para auxílio direto na progressão do escalador, reservando-os apenas para proteção caso uma queda venha a ocorrer. Isso implica não pisar nem segurar neles, tanto para impulso quanto para equilíbrio, em ascensões que se digam como sendo em livre. Dentro desse conceito, descansar em um grampo também é uma forma de usá-lo como apoio, pois assim a continuidade de dificuldades, sem a presença de locais naturais de repouso – platôs, lacas, depressões e saliências de porte na rocha –, estará sendo quebrada, e esse é um dos fatores preponderantes na determinação do grau de uma via, a ser assumido por quem se dispuser a fazê-la em livre. Mesmo que após descansar o escalador retome a sua posição original no lance para o reinício da ascensão, ainda assim estará usando um ponto de apoio, pois terá se valido de um artifício para dividir uma seqência de dificuldades em "n" partes, tornando-a obviamente mais fácil enquanto menos extenuante. Em outros países isso é chamado de aid-rest (descanso com apoio), e as passagens assim executadas são classificadas como sendo de A-0, pois encontram-se a meio caminho entre ascensões em livre puras e os artificiais convencionais. A exceção evidente a esta regra corre por conta das paradas no final das enfiadas de corda onde não hajam locais naturais de repouso, ou no hands rests, se usarmos uma vez mais a terminologia empregada no exterior. Mas a prática nos mostra que tais casos são raros, e que a negativa a esta afirmação decorre do fato de que o nosso sistema usual de proteção, centrado em grampos fixos de altíssima resistência, permite a parada em virtualmente qualquer ponto da escalada, sem que se tenha que buscar, necessariamente, um desses locais naturais de repouso para descansar e trazer o participante. Um exemplo concreto: há uma seqüência de lances no Paredão Soleil, entre o seu primeiro platô e um óbvio buraco (locais de parada naturais) que, se feita em livre de forma contínua, terá uma dificuldade. No entanto, se for repetida descansando-se em cada grampo, ou dividida em duas ou mais enfiadas de corda por meio de paradas forçadas, então sua dificuldade será inteiramente diferente daquela. E quando o escalador cai? Ao voltar à sua última costura para se recompor não estará ele usando um ponto de apoio artificial para descanso? Sim, pois a queda significa que ele falhou em sua tentativa de subir em livre aquele trecho. Deriva diretamente deste fato um estilo de ascensão muito popular em todo o mundo conhecido como "iô- iô", onde o escalador, após cada queda, retorna ao seu último no hands rest (literalmente, ponto de descanso sem as mãos) e dali recomeça toda aquela seqência de lances, visando fazê-la de forma contínua.
Conhece-se casos de cordadas que consumiram mais de um mês de tentativas em iô-iô até conseguiram, finalmente, fazer em livre uma determinada enfiada de corda de dificuldade extrema. A opção para este fanatismo seria usar os apoios e assumir que não foi possível fazer em livre aquela via. Outra dúvida que constantemente surge é se o escalador está usando um ponto de apoio quando segura em um grampo apenas para costurá-lo. Certamente que sim, pois isso além de ser uma forma de descanso, especialmente após lances de agarrinhas, freqüentemente serve como meio de se recuperar o equilíbrio perdido ou abalado após um lance difícil. Repetir escaladas evitando o uso de pontos de apoio artificiais é um caminho rápido, seguro e eficiente para o aprimoramento técnico individual. Permite também que velhas vias conquistadas total ou parcialmente em artificial subitamente voltem a despertar interesse, para ver se é possível se "eliminar" (evitar) os pontos de apoio até então existentes. Essa prática tem como consequência direta uma elevação substancial no nível geral de habilidade dos escaladores, e faz com que certas vias sofram drásticas mudanças de dificuldade. Por exemplo: o Paredão Baden Powell, de acordo com a concepção tradicional, é classificado como 4o IVsup, mais um pequeno cabo de aço (C). Se feito inteiramente em livre (cabo de aço inclusive) no entanto, seu grau pula para 5o VIsup se os mesmos parâmetros de avaliação forem utilizados, no caso os propostos pela Federação de Montanhismo do Estado do Rio de Janeiro – FMERJ em 1975. Isso em absoluto não significa que todos devam escalar dessa forma, pois a total liberdade de ação, fruto da escolha pessoal, é uma das principais características de nosso esporte, desde que terceiros não sejam prejudicados como no caso de grampos instalados para substituir dificuldades. Mas não é demais pedir que relatos de conquistas e repetições de vias já estabelecidas sejam precisos nesse aspecto, para que se possa avaliar corretamente a dificuldade de cada via e haver uma padronização da nomenclatura específica, reservando o termo "escalada livre" para aquelas que realmente o forem.

André Ilha
Texto distribuído juntamente com o "Manifesto da Escalada Natural", de setembro de 1983, em sua versão impressa.


28/01/2010

Um esporte ameaçado por André Ilha


  Praticado eventualmente no Brasil desde o século XIX, o montanhismo, termo que engloba caminhadas e escaladas em rocha, ganhou impulso com a histórica conquista do Dedo de Deus, em Teresópolis, em 1912, feito que teve repercussão nacional à época. Pouco depois, em 1919, era fundado o Centro Excursionista Brasileiro, primeira agremiação do gênero em toda a América Latina, e desde então o esporte vem crescendo de forma ininterrupta, reunindo hoje milhares de adeptos que o praticam, como norma geral, dentro de elevados padrões técnicos. Boa parte destes montanhistas encontra-se filiada a dezenas de clubes, quatro federações estaduais e, agora, também à Confederação Brasileira de Montanhismo e Escalada - CBME, todos imbuídos do
propósito de difundir o esporte dentro de padrões de segurança que nada devem aos mais avançados centros de escalada em todo o mundo.
   Além disso, os montanhistas, também como norma geral, possuem elevada consciência ecológica e, cientes do impacto que a presença humana pode causar nos ambientes naturais, desenvolveram, em parceria com o Ministério do Meio Ambiente, um conjunto de recomendações para a prática do montanhismo de mínimo impacto. Por amor às montanhas que freqüentam, eles se engajaram diretamente na luta pela criação de muitas unidades de conservação importantes em maciços rochosos como, por exemplo, o recém-criado Monumento
Natural Municipal do Pão de Açúcar e a APA Morro da Pedreira, em Minas Gerais, e outras mais foram instituídas por sua inspiração, como é o caso do Parque Estadual dos Três Picos, na Região Serrana do Rio de Janeiro. E, num bem-sucedido esforço de auto-regulamentação de sua atividade, seminários de mínimo impacto em áreas específicas vêm sendo realizados, provando ser possível conciliar o lazer com a preservação do meio ambiente. Entretanto, a despeito do vigor apresentado por este esporte amador que, como poucos, sintetiza a comunhão do homem com a natureza, e da inegável responsabilidade
com que ele é praticado hoje no Brasil, tanto em termos de segurança física quanto ambiental, alguns fatos recentes têm ameaçado a sua prática tradicional, mormente no interior de certas unidades de conservação federais.
  O primeiro deles é a obrigatoriedade da contratação, em alguns parques nacionais, dos chamados "condutores de visitantes", moradores do entorno destas unidades que receberam uma capacitação superficial para levar turistas e certos destinos fáceis e pré-determinados no interior das mesmas. É certamente desejável que tal oportunidade de emprego e renda seja disponibilizada aos jovens locais, mas ao obrigar montanhistas experientes e responsáveis a desembolsar uma quantia nem sempre pequena para ter ao seu
lado um desconhecido menos experiente que eles, que os levará a destinos repetidos e tecnicamente inexpressivos, os gestores destas unidades, por não tê-los distinguido de turistas citadinos leigos, aniquilam o montanhismo de alto nível tal como ele é praticado em todo o mundo. A existência de um serviço de condutores de visitantes opcional em todos os parques e unidades afins parece-nos o mais recomendável, uma vez que a grande maioria dos visitantes de fato precisa de alguém que lhes permita tirar o máximo proveito de sua permanência, proporcionando-lhes a necessária segurança
física aliada à certeza do desfrute de certos atrativos naturais, ao passo que os montanhistas tradicionais, como qualquer praticante dos chamados esportes de aventura, estão em busca do desafio e da dificuldade e dispostos a aceitar a incerteza de resultados que caracteriza tais atividades. Públicos distintos, portanto, aos quais se deve proporcionar tratamento distinto, até porque o lazer é um dos objetivos precípuos dos parques e unidades afins, conforme a lei que instituiu o Sistema Nacional de Unidades de Conservação - SNUC.
Já em outras unidades partiu-se para o estabelecimento de um sistema de concessões em princípio bastante positivo quando se trata de serviços auxiliares, como bares, lanchonetes e venda de suvenires. Entretanto, algumas extrapolaram, cedendo à grande pressão de empresários do setor no sentido de que a prática de quaisquer atividades esportivas ou de lazer tenha que se dar, necessariamente, através da contratação de uma empresa que as monopolize naquela unidade, mediante licitação. Em outras palavras, ensaiam terceirizar não apenas os serviços opcionais, mas também o próprio
uso público da unidade, privatizando o direito constitucional de desfrute dos atrativos naturais de cada parque pelos cidadãos! Uma vez mais a disponibilização opcional de tais serviços para os turistas inexperientes que aportam nestas unidades aos milhares a cada ano em busca de alguma emoção configura-se como o correto - serviços estes que, por sinal, serão melhores caso a concorrência não seja suprimida e um certo número de operadores possam atuar simultaneamente.
  Por todo o exposto, urge que as autoridades ligadas às áreas de meio
ambiente, esporte e turismo avancem juntas na compreensão de que existem duas espécies completamente distintas de usuários das unidades de conservação. A primeira, bem mais numerosa, é a do turista convencional que, atraído pelas belas imagens destas áreas naturais, deseja conhecê-las de forma rápida e dirigida e que se valerá dos serviços postos à sua disposição por guias locais ou por operadoras de turismo para maximizar os resultados de sua visita. Já a outra, muito menor, é constituída por pessoas que buscam uma experiência mais intensa no convívio com a natureza, envolvendo descoberta, desafio, auto-superação; pessoas dispostas a suportar a frustração de eventuais fracassos, mas que por outro lado desfrutam as
recompensas interiores conquistadas por sua habilidade, técnica e
perseverança, sem assistência externa. Isto tudo, claro, dentro da estrita observância da legislação ambiental e assumindo plenamente os riscos inerentes a estas atividades, o que implica isentar por completo os gestores de tais unidades, mediante termo próprio, na eventualidade de um acidente.
  No Ministério dos Esportes esta diferenciação já foi bem compreendida, e na área ambiental a atual administração do Parque Nacional da Serra dos Órgãos vem desenvolvendo um modelo de relacionamento com os montanhistas amadores que pode ser reputado como exemplar. Resta, contudo, que este modelo seja
devidamente apreciado e estendido a outras unidades pelo IBAMA e pelo próprio Ministério do Meio Ambiente para que o montanhismo tradicional independente não seja banido dos principais maciços do país, quase todos inclusos em unidades de conservação, em benefício exclusivo dos empresários e de outros segmentos que se aproveitam comercialmente do boom dos esportes de aventura.

André Ilha é ex-presidente do Instituto Estadual de Florestas do Rio de
Janeiro (IEF/RJ)

 


25/09/2009

A importância de proteger as Montanhas


A importância de proteger as montanhas
Texto de Reginaldo José de Carvalho
  

   As montanhas são os mirantes naturais da terra, impressionam pela grandiosidade e beleza, mexem com os sentimentos, encantam,ensinam e tranqüilizam com o silêncio e a paz. Provocam admiração, são fonte de inspiração para diversas culturas e crenças desde muito tempo atrás. Cobrem grande parte da superfície terrestre, onde metade da população mundial depende de seus recursos, e também, vivem milhões de pessoas. Por muito tempo, pelo fato de estarem situadas em lugares isolados, mantinham-se protegidas da ação humana. Porém, atualmente, elas já estão sendo afetadas.Algumas dessas áreas selvagens que restam, estão desaparecendo, cedendo espaço à infra-estrutura urbana e industrial, à agricultura e outros fatores relacionados ao “desenvolvimento”.Geralmente as montanhas são vistas como fonte inesgotável de recursos naturais, mas pouca atenção se dá à fragilidade de seus ambientes e na conservação e preservação de seus complexos ecossistemas.
Fontes de água
  

   Montanhas são os reservatórios do mundo, essenciais para todo o tipo de vida na terra e para o bem estar da humanidade. Pertencem ao imbricado mosaico de sistemas naturais, pois o que acontece no topo das montanhas, reflete na estruturação da vida nas planícies, baías, oceanos e mares. As nascentes dos grandes rios que fornecem água para a maioria das grandes cidades, encontram-se nas montanhas. Cerca da metade da população mundial depende das chuvas que caem nas grandes cordilheiras, como a do Andes, Cáucaso, Himalaia, Karakoram, Pamir, Ruwenzori, Alpes, Montanhas Rochosas entre outras. Grande parte da água do rio Amazonas, provém da Cordilheira dos Andes. Em muitos países andinos, as montanhas retêm a neve e o gelo, favorecendo a irrigação dos campos de cultivos, abastecendo cidades, gerando energia etc.
  

   No Brasil, as montanhas da Serra do Mar são cobertas pela densa Floresta Atlântica, nessas áreas, estão concentradas as nascentes dos principais mananciais de água que suprem grande porção da demanda do abastecimento público e industrial de diversas cidades litorâneas do sul e sudeste brasileiro, a qual Joinville está incluída.
  

   A conservação dos recursos hídricos é de extrema importância para manter a vida na Terra, se não houvesse outros motivos para se proteger as montanhas, este já seria o suficiente.
Abrigo da biodiversidade
  

  Por estarem em locais remotos, às vezes inacessíveis, e possuírem um potencial limitado para agricultura e desenvolvimento de cidades, algumas regiões montanhosas tornam-se menos acessíveis pelo homem. Por causa disto, tornam-se santuários da fauna e da flora, que talvez já tenha desaparecido nas planícies.
  

  Ecólogos calculam que mais de um terço das plantas terrestres e dos vertebrados conhecidos, estão confinados a menos de 2% do planeta. Inúmeras espécies aglomeram-se em regiões de solos ricos e não danificados. Muitas dessas regiões ficam nas montanhas e contém uma biodiversidade que beneficia a todos. Alguns dos alimentos mais importantes do mundo vêm de plantas silvestres que ainda crescem nas montanhas, milho nas terras altas do México, batata e tomate nos Andes e trigo no Cáucaso, para mencionar apenas alguns.
  

  No Brasil, o que sobrou da cobertura original da Floresta Atlântica, está distribuída pelas íngremes encostas da Serra do Mar onde ainda guardam cenários originais do bioma, apresentando uma rica biodiversidade.
Contemplação
  

  As montanhas também conservam a beleza natural. Nelas podem ser encontrados vertiginosos paredões rochosos, deslumbrantes cachoeiras, rios, lagos, florestas, geleiras e grande parte dos cenários mais impressionantes do mundo. Em todo o planeta um terço de todas as áreas protegidas estão nas regiões montanhosas. E são os lugares mais procurados por excursionistas. Muitas comunidades das montanhas beneficiam-se dessa afluência de turistas, embora o turismo sem controle possa ameaçar o frágil ecossistema. Exemplos de exploração comercial como no Everest, devem ser mais conscientes e melhor controladas.
Conhecimento empírico dos povos das montanhas
  

  No decorrer dos séculos, as pessoas que vivem nas montanhas aprenderam a tirar proveito do ambiente hostil. Os povos das montanhas em geral, construíram terraços nas montanhas que ainda são utilizados na agricultura, mesmo depois de dois mil anos. Domesticaram animais nativos como a lhama nos Andes e o iaque no Himalaia, que conseguem se adaptar ao frio e aos rigores das elevadas altitudes.

  O conhecimento empírico, acumulado por estes povos, pode ser inestimável na questão de proteger as montanhas das quais todos nós dependemos. Esses povos são os únicos guardiões dos enormes e poucos explorados habitats nas regiões remotas de cada continente, eles possuem um acervo de conhecimento ecológico que se iguala aos das bibliotecas de ciência moderna. Essa riqueza de conhecimento, necessita de tanta proteção quanto outros recursos encontrados nas montanhas.
Aquecimento Global
  

  Os ambientes de montanha são os mais afetados pelo aquecimento global, as geleiras estão derretendo e as camadas de neve estão diminuindo, um processo que segundo alguns cientistas, afetará as reservas de água e provocará sérios problemas.
Atualmente, dezenas de lagos glaciais no Himalaia ameaçam a romper suas barreiras naturais e causar enchentes catastróficas, fenômeno que já ocorreu várias vezes nas últimas décadas. Montanhas como o Kilimanjaro poderá perder suas geleiras daquia quinze anos, nos Andes o recuo das geleiras também é bastante perceptível, podendo causar problemas sérios no que diz respeito ao abastecimento de água.
 

  Estes são alguns dos motivos para manter conservado qualquer ambiente de montanha existente em nosso planeta, ajude-nos a conservá-las, pois só assim, estaremos perpetuando-as para as futuras gerações.

Reginaldo José de Carvalho é montanhista, geógrafo e diretor ambiental da Associação Joinvilense de Montanhismo.

 


18/09/2009

Calçado ideal!??


    A primeira coisa a fazer quando se pretende adquirir um calçado para uma atividade outdoor é definir onde você pretende usá-lo. Depois, definir qual atividade a ser praticada e então observar as características como apoio, proteção, absorção de impacto e aderência do solado entre outras.

    Além das características do calçado, importante também é a “sua” característica. Seu tamanho e peso, estrutura e peculiaridade de seus pés. Na verdade não existe um calçado ideal, o importante é que este “caia bem em seu pé”. Um calçado realmente bom não será barato, mas fará toda a dife­rença.

E lembre-se: “Calçado mal escolhido pode acabar com sua aventura!!!!!”

 Alguns detalhes para observar na compra do seu calçado:

1- Conheça o tipo do seu pé e procure por calçados que sejam feitos para ele;

2- Compre à tarde, noite ou depois de caminhar/correr, quando seus pés aumentam pelo inchaço;

3- Experimente o calçado com meias de trekking;

4- O calcanhar não deve apertar nem deixar seu pé deslizar;

5- Os dedos devem se mexer com as botas no pé, mas este espaço não pode ser muito grande;

6- O pé incha com o calor. Se o tênis for justo, compre um maior

7-Sempre experimente os dois pés ao mesmo tempo, fechando-a completamente como se fosse sair para caminhar naquele instante;

 8- Caminhe com o calçado ou corra pela loja, nunca experimente o calçado apenas sentado;

    Para corridas de aventura um bom tênis deve apresentar um bom solado (aderente) e recursos para secagem e escoamento da água da meia e do pé são as mais indicadas. Para caminhadas longas ou curtas pode-se optar por tênis ou botas. As botas dão mais sustentação ao tornozelo e aquecem mais o pé. As com películas respiráveis são mais indicadas por serem impermeáveis e transpiráveis.

 

MEIAS TAMBÉM SÃO IMPORTANTES....

 

    A escolha das meias é tão importante quanto os calçados pois complementa o “equipamento” dos seus pés. As meias não devem mudar o ajuste do calçado, se grandes demais podem causar des­conforto, bolhas ou inchaço, se justas, podem afetar a circulação e o movimento dos dedos.

 Uma boa opção são as meias confeccionadas com tecidos antibactericida.

*Texto de Fabiana Thisen Buhrer.


10/09/2009

Roupas adequadas para o friooo!!


   Com a chegada das estações de outono/inverno as temperaturas caem muito e para quem pensa em sair para viagens a locais de inverno rigoroso como: estações de esqui, cidades serranas e cordilheiras, devem escolher roupas adequadas para estes ambientes.

   A maioria das pessoas pensa que a melhor opção para a proteção contra o frio é usar um casacão bem pesado e grosso! Se você usar um casacão pesado sobre uma camiseta de manga curta, não terá muita alternativa, é 8 ou 800! Usa o casaco e sente calor ou fica de camiseta e morre de friooo!!

   A maneira ideal é vestir-se em camadas, ou seja, uma camada de isolamento, uma camada de aquecimento e outra camada de proteção externa. Este sistema pode ser usado tanto para vestir o tronco como para as pernas.

   A camada de isolamento fica em contato com a pele e tem a função de absorver e transportar a umidade corporal para o meio exterior. O algodão exerce bem esta função, porém, no inverno ou em dias de baixas temperaturas e muita umidade, o ideal é usar fibras sintéticas (poliéster), que não absorvem tanta água como o algodão e secam mais rápido. Permanecer longos períodos com roupa molhada pode levar a hipotermia.

   A camada de aquecimento pode ser formada com tecidos sintéticos (fleece, pile, polartec, dracon) ou fibras naturais, tais como a lã. Esta camada tem a função de “regular” e “segurar” o ar aquecido junto ao corpo, mantendo um microclima agradável e confortável. As fibras sintéticas absorvem muito menos água do que as fibras naturais e aquecem tanto quanto, alem de serem mais leves, mais fáceis de lavar e de menor volume.

   Usamos como camada de proteção externa, os anoraks, capas de chuva ou parcas. Eles protegem da chuva, vento e do sol. O tecido ideal é o nylon resinado, somado a uma membrana impermeável/transpirante (Gore-tex, Sympatex, TPC, etc.).

   Quando o resto do corpo está devidamente vestido, a cabeça descoberta é como um radiador, responsável pela liberação de mais da metade do calor que o corpo perde. A cabeça é a primeira parte do corpo que deve ser descoberta quando você está superaquecido e a primeira parte a cobrir, quando você está com frio.

   Bonés do tipo legionário com uma bandana atrás são excelentes para proteger o pescoço e orelhas do sol alem dos óculos escuro quando for o caso. Não se esqueça de levar protetor solar e protetor labial. Principalmente sob a neve, superfície muito clara funciona como um espelho, refletindo os raios solares e causando queimaduras.

   Tenha em mente que estar bem vestido, protegido das intempéries, aquecido e confortável deixará a suas aventuras e viagens muito mais agradável e segura.

*Texto de Daniel Acruche Fernandes.


25/08/2009



  A escolha da mochila certa exige atenção. A mochila ideal é aquela que mais se adequa às suas atividades e à sua estrutura física. Conhecer bem as regulagens e saber arrumá-las da melhor forma são detalhes que aumentam a harmonia de seu relacionamento com o equipamento e lhe permitem desfrutar melhor as facilidades que ele lhe oferece.

A variedade de modelos, cores, tamanhos e preços podem confundir.

Preste atenção aos seguintes itens:

Tamanho

  O tamanho de uma mochila é determinado pela sua capacidade em litros. Isso sempre soa muito abstrato para quem está pouco familiarizado com o assunto e pode não significar absolutamente nada para quem está comprando sua primeira mochila. As pequenas em geral têm capacidade para 25 a 40 litros. A capacidade das médias varia de 45 a 60 e as grandes, também chamadas de cargueiras podem carregar de 60 a 90 litros. Pense primeiro em que atividade você vai estar realizando com a mochila. Existem mochilas especiais para bike, montanhismo ou caminhadas. Se você precisa de uma mochila polivalente, é melhor optar por uma média com bons recursos de regulagem. É preciso manter a carga bem firme mesmo quando a mochila não estiver totalmente cheia. Também é bom ter opções para atar isolantes e outros acessórios à estrutura externa da mochila. Tenha sempre em mente que encher demais uma mochila pode comprometer sua durabilidade.

Custo x Benefício

  Materiais mais resistentes e acabamento de melhor qualidade podem custar um pouco mais na hora da compra, mas tendem a durar mais. Atualmente as mochilas estão bastante evoluídas e apresentam uma série de soluções específicas para as atividades às quais se destinam. Por isso é melhor não tentar comparar o preço da "pequininha" com o da "grandona". Se você já está praticando atividades como montanhismo, caminhadas e cicloturismo há algum tempo, tenha em mente que a mochila é um item fundamental. Investir um pouco mais para ter o que o mercado oferece de melhor pode significar anos de tranquilidade.

Ergonomia

 Este conceito refere-se à ajustabilidade dos objetos à anatomia humana. No caso da mochila ele é fundamental. Proporcionar transporte de carga em harmonia com a constituição física humana é a principal função da mochila. Na hora de escolher a sua, preste muita atenção em como ela se ajusta às costas e aos quadris. As mulheres devem verificar se a curvatura das alças não está incomodando na altura dos seios. Depois de algumas horas de caminhada, alças inadequadas podem machucá-los. Volume externo Bolsos laterais e traseiros são interessantes para separar a bagagem e manter determinados itens sempre à mão. Entretanto, bolsos externos podem se enroscar facilmente quando se caminha em mata fechada ou atrapalhar a locomoção em lugares muito movimentados como rodoviárias e aeroportos. O ideal é que a mochila seja mais estreita que seus ombros, mais baixa que sua cabeça e tenha perfil achatado sem bolso traseiro. Os modelos com bolsos destacáveis, que podem ser usados como pequenas mochilas de ataque são muito interessantes.

COMO REGULAR SUA MOCHILA

  Mochilas moderna têm várias regulagens e é fundamental conhecer suas funções para poder adequá-las a cada situação. Conhecer os detalhes de sua mochila e saber fazer a regulagem correta pode salvar uma viagem. Com exceção da regulagem dorsal, todas as outras devem ser ajustadas toda vez que se veste a mochila, pois dependem da carga, do terreno, da roupa e até do humor do dono. E quanto mais técnica for a atividade mais se exige estabilidade da mochila e mais apertadas devem ser as regulagens.

Regulagem dorsal

  Normalmente é a única regulagem fixa da mochila, ou seja, você regula apenas uma vez de acordo com o tamanho do seu tronco. Faça essa regulagem de maneira muito atenta e de preferência com o auxílio de alguém. Se for mal feita, esta regulagem poderá sobrecarregar os ombros.

Fitas de compressão lateral

  Este tipo de regulagem se torna especialmente importante para mochilas com meia carga, pois permite compactar a carga mais perto das costas. O ideal é deixar a mochila achatada e rígida. O sistema mais comum é o de duas ou três fitas horizontais em ambas as laterais da mochila. A regulagem é feita com fivelas de nylon do tipo "só puxar". É bom que se tenha pelo menos quinze centímetros de fita sobrando para prender apetrechos (o isolante, por exemplo). Neste caso fivelas tipo macho-fêmea" facilitam ainda mais a operação.

Barrigueira

  Este é o acessório mais importante da mochila, média ou grande. Fuja das mochilas com regulagem fixa, ou seja, aquelas que além da fivela principal da barrigueira tem uma outra que fixa a regulagem. No mínimo um dos lados deve ter regulagem livre: ajustável sem que seja preciso desconectar a fivela principal. Certifique-se também se a regulagem mínima da barrigueira vai se ajustar adequadamente quando você estiver magrinho ou caminhando sem camisa. Algumas pessoas chegam a emagrecer até cinco quilos numa caminhada de quinze dias em terreno difícil ou altitude. Não se esqueça de que a função principal da barrigueira é transferir o peso da mochila para os quadris. Barrigueiras fofinhas e com aparência confortável podem se tornar um martírio sob uma mochila carregada, e normalmente perdem muito em durabilidade.Muitas mochilas pequenas e leves têm barrigueiras de fita que não transferem carga para a cintura. Elas funcionam com estabilizadores e são muito úteis para escalar, correr ou caminhar em terrenos acidentados. Fique atento também para a fivela. Existem muitos modelos diferentes e alguns deles podem quebrar se utilizados de forma exigente, principalmente se forem de plástico. As boas fivelas são de nylon e geralmente fazem um sonoro "clac" quando fecham.

Alças principais

  Assim como na barrigueira, as alças devem ser estruturadas (semi-rígidas) para melhor eficiência e durabilidade. As alças"acolchoadas" ou "fofinhas" acabam se deformando e tendo a superfície de contato diminuída. A regulagem das alças pode ser de cima para baixo, quando as fivelas são fixas nas extremidades das alças, ou debaixo para cima quando as fivelas são fixas na base da mochila.

Estabilizador lateral

  Item reponsável pela estabilização do movimento lateral da mochila sobre as costas, deve ser regulado após a barrigueira e as alças terem sido apertadas, pois sua regulagem muda drasticamente a cada situação. Estabilizador superior Mantém a mochila próxima das costas e desloca o peso para a frente, o que aumenta a eficiência da barrigueira. Muitas mochilas permitem regular a altura desta inserção, o que deve ser feito depois da regulagem dorsal. O ideal é que ela se mantenha alguns centímetros acima dos ombros.

Estabilizador peitoral

  É uma ótima solução para cargas pesadas, terrenos acidentados e caminhadas longas. Evita que as alças entrem em baixo dos braços e permite transferir o "puxão da mochila" (tendência da mochila cair para trás) para a área peitoral, aliviando os ombros. Mudando-se a regulagem do estabilizador peitoral durante o decorrer do dia, ou mesmo soltando-a algumas vezes, alivia-se bastante o desconforto na parte superior do tronco.

COMO DISTRIBUIR O PESO NA MOCHILA

  O bom equilíbrio da mochila nas costas é fundamental para o conforto e desempenho do usuário. A distribuição dos equipamentos na mochila muda de acordo com a atividade a ser praticada:

Caminhadas leves ( terrenos suaves e descampados)

  Coloque o material pesado o mais alto possível e perto das costas., de forma a manter o centro de gravidade da carga na altura dos ombros.

Caminhadas médias (terrenos acidentados e trilhas em mata ) e escaladas

  Em situações que exigem passos altos, pulos, agachamentos e balanços laterais, o centro de gravidade deve ser baixado para a altura do meio das costas e próximo à mesma. Uma mochila grande, com centro de gravidade alto, pode derrubar seu dono durante um agachamento. A colocação do material mais pesado no lugar certo também facilita a operação de colocar e tirar a mochila sem ajuda.

Caminhadas difíceis (terreno muito acidentado e mata fechada) e grandes cargas

  Em expedições pela mata atlântica ou aproximações de grandes montanhas, pode-se colocar o equipamento pesado no fundo da mochila, o que permite maior liberdade de movimentos e,consequentemente, menor desgaste físico durante a jornada.

Fonte: Revista Outdoor - outono de 1998 - ano 2 - número 6. Texto: Tomás Gridi Papp


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